Sexta-Feira, 24 de Maio

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Vida após a morte

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João Baptista Herkenhoff
Nosso texto “Indagações sobre a Fé”, publicado há alguns dias, suscitou interessantes questionamentos.
Inteligente e culto interlocutor, residente em Juazeiro, na Bahia, indagou se a Lógica, com abstração dos dados da Fé, conduziria a inteligência no sentido de aceitar a existência de uma vida após a morte.
O proponente da indagação deixou claro que não desejava argumentos bíblicos, pois estes obviamente socorrem a tese da vida extraterrena.
Tentemos elencar razões que demonstrem ser pertinente a crença na imortalidade, à luz do simples raciocínio dialético:
a) a crença numa vida pós-morte está presente em todas as culturas espalhadas pelo mundo, tanto hoje quanto em tempos pretéritos;
b) no Egito acreditava-se que após a morte física a alma compareceria perante o tribunal de Osíris. A vida terrena seria julgada e a recompensa dos justos seria a vida eterna. O corpo era mumificado e guardado num sarcófago;
c) na Grécia antiga, Pitágoras, Tales de Mileto, Platão e Sócrates comungavam a ideia de alma imortal;
d) Sócrates, à frente do tribunal que o julgou disse: Não tenho outra pretensão senão a de vos persuadir de que cuideis menos de vossos corpos mortais e de vossos bens, e mais de vossas almas; Platão, no diálogo de Fédon, ensinou que a alma imortal era parte da unidade intrínseca ao homem;
e) na Índia, o Hinduísmo e o Budismo afinam na aceitação da tese da imortalidade do espírito;
f) o Islamismo não discrepa dessa visão – depois da morte a alma vai para o Barzakh (barreira), onde aguarda seu último destino;
g) esse dado cultural, presente no Egito, Grécia, Índia, Universo Muçulmano e em muitas outras civilizações, está a assinalar, não um acidente ou um acaso, mas uma constante;
h) a verificação do liame que coloca povos das mais diversas latitudes, em diferentes épocas, atrelados à crença na imortalidade, é um fato comprovado pela pesquisa histórica, dentro de rigorosa metodologia;
i) o ser humano, no reino animal, é o único que deseja a imortalidade como apelo existencial;
j) essa aspiração à imortalidade é uma realidade antropológica que aponta para o destino eterno do homem;
k) pessoas que estiveram em coma profundo, após voltar à plenitude da vida relatam que durante o coma tiveram a visão do eterno, estiveram na ante-sala de um outro mundo. É o que conta, por exemplo, o neurocirurgião Eben Alexander, pesquisador da Universidade de Harvard, em livro que foi resenhado pelo jornal The New York Times (Proof of Heaven).  Seguem a mesma direção os relatos coligidos pelo médico americano  Melvin Morse, publicados no livro “Closer to the Light”, também resenhado no NYT.
João Baptista Herkenhoff, magistrado aposentado, escritor e Livre-Docente da Universidade Federal do Espírito Santo.
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Educação, ciência e tecnologia na ONU

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Paiva Netto

No dia 16 de maio, ocorre na sede da ONU, em Nova York, EUA, na aclamada Câmara do Ecosoc, um fórum da sociedade civil e do Conselho Econômico e Social das Nações Unidas com a pauta “Construindo parcerias no campo da educação por meio da ciência, da tecnologia e da inovação”. O debate está sendo organizado por um comitê formado pela Legião da Boa Vontade, a Associação Mundial de Estagiários e Colaboradores Reformados da ONU e a Fundação Global de Desenvolvimento do Milênio, em suporte à Seção de ONGs do Departamento de Assuntos Socioeconômicos da ONU.

O ato solene de abertura contará com o presidente do Ecosoc, dr. Nestor Osorio. A LBV também fará uma apresentação, intitulada “Promovendo desenvolvimento e inclusão social por meio da educação e da tecnologia”.

O fórum terá ainda palestrantes de universidades de vários países e especialistas no uso das tecnologias da informação e comunicação aplicadas nas mais modernas formas de ensino.

 

BRASILEIRO DIRIGIRÁ A OMC

É um grande reconhecimento ao Brasil a escolha do diplomata Roberto Carvalho de Azevêdo, natural de Salvador/BA, para o cargo de diretor-geral da Organização Mundial do Comércio (OMC), a partir do mês de setembro deste ano até 2017. O anúncio formal pode ser feito hoje, em reunião do Conselho Geral da OMC, conforme nota do Itamaraty. Desde que foi criado, em 1995, será a primeira vez que um latino-americano presidirá o órgão.

Saudamos também sua digníssima esposa, a embaixadora Maria Nazareth Farani Azevêdo, chefe da Missão Permanente do Brasil nas Nações Unidas e outros organismos internacionais em Genebra, Suíça. Em 2011, tivemos a honra de contar com sua participação no painel temático organizado pela LBV, na Reunião de Alto Nível do Ecosoc, em Genebra.

 

CAMPANHA CORAÇÃO AZUL 

Há alguns anos venho ressaltando em artigos e livros que o abominável tráfico de seres humanos deve ser fortemente combatido. É imensa a preocupação das mães com a segurança dos filhos. Muito oportuna, pois, a adesão de nosso país à Campanha “Coração Azul — Contra o tráfico de pessoas”, que o Escritório das Nações Unidas sobre Drogas e Crime (UNODC) lançou na quinta-feira, 9/5, na sede do Ministério da Justiça, em Brasília/DF.

A Legião da Boa Vontade — coração azul que há mais de seis décadas pulsa pela Solidariedade no mundo — apoia essa ação e convida você a participar da corrente do Bem e compartilhar essa iniciativa.

 

José de Paiva Netto ― Jornalista, radialista e escritor.

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EXTERMINADORES DO FUTURO

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Antonio Delfim Netto
Depois de quatro anos de trabalho árduo em que os construtores tiveram que vencer obstáculos incomuns para contratar pessoal e garantir o suprimento das obras na extremidade oriental da Amazônia brasileira, começa a operar no próximo mês de junho a hidrelétrica de Jirau, em Rondônia. Junto com a usina de Santo Antônio, também no rio Madeira, quando atingirem a plena operação vão acrescentar, respectivamente 3.750 MW e 3.150 MW aos atuais 80.000 MW de oferta de energia limpa da matriz brasileira.
Atingindo esses níveis de produção, Jirau e Santo Antonio ocuparão, respectivamente, a quarta e a quinta posições dentre as maiores hidrelétricas do país, perdendo apenas para Itaipu, no rio Paraná, (que é também a segunda maior do mundo, após Três Gargantas, na China), Belo Monte no rio Xingu, que com todas as perturbações que atrasam a obra estará produzindo em mais dois anos e Tucuruí, no rio Tocantins, que é a terceira, no Brasil.
Ambos os empreendimentos contaram com forte apoio do governo federal, antes mesmo de começar as obras e durante a sua execução, para agilizar os procedimentos e superar restrições para a liberação dos licenciamentos ambientais, especialmente junto ao IBAMA. O Presidente Lula, primeiramente para a obtenção da licença e depois intervindo em disputas trabalhistas empenhou-se pessoalmente nessas ações e a Presidente Dilma igualmente agiu de forma direta na remoção dos entraves burocráticos que surgiam à cada passo retardando o andamento dos trabalhos de construção.
São duas obras que terão um registro especial pelo fato que a determinação de realiza-las impôs uma derrota ao movimento de resistência à incorporação da Amazônia ao desenvolvimento brasileiro. Não é novidade que muitas dessas ações têm inspiração externa. As pessoas mais jovens não presenciaram certamente as tentativas bem orquestradas para impedir o aproveitamento por brasileiros das reservas minerais de Carajás, nem as ações de marqueting contra a construção da hidrelétrica de Tucuruí, no rio Tocantins, empreendimento vital para o sucesso do projeto.
Para essas organizações alienígenas que usam como subterfúgio a defesa intransigente da natureza, já no tempo da construção da hidrelétrica de Itaipú se propagava que seria um desastre ecológico, o que se mostrou o oposto, pois se tornou um dos espaços mais aprazíveis para os residentes em toda a região e para os programas turísticos de toda uma população do chamado cone Sul do continente.
Os brasileiros fariam bom negócio desconfiando da motivação das campanhas que hoje mantém permanentemente na mídia uma oposição feroz ao aproveitamento do potencial hidrelétrico do rio Xingu, onde se constrói a usina de Belo Monte e dos rios da bacia do Tapajós. Quando se lê que cidadãos de uma aldeia indígena, distante 400 quilômetros do trecho do rio Tapajós onde se pretende realizar a obra, se deslocaram (ou foram conduzidos...) até a cidade de Altamira, no rio Xingú, para “exigir” a paralização de quaisquer estudos sobre obras “em todos os rios da Amazônia”, é lícito suspeitar que se trata de alguma armação de “caras-pálidas” que habitam outro hemisfério...
Difícil mesmo é aceitar que existe motivação honesta em defesa do patrimônio ambiental amazônico (que deveria ser preservado “para o uso comum da humanidade”), no deslocamento de grupos que parecem extraídos de alguma série de filmes tipo “exterminadores do futuro” cujo roteiro de viagens foi tão mal estudado que se permitem cumprimentar silvícolas brasileiros como “legítimos descendentes do povo asteca”...

Os tomates e o 1º de maio

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Por Selvino Heck
“Crise faz com que crianças passem fome na Grécia”, é a manchete do New York Times (29.04.13). Diz a matéria do jornal: “Como diretor de uma escola primária, Leonidas Nikas está vendo o que ele pensava que fosse impossível acontecer na Grécia: crianças procurando comida nas latas de lixo, jovens necessitados pedindo sobras de comida aos colegas e um menino de 11 anos, Pantelis Petrakis, com o corpo crispado pela fome. ‘Ele não tinha comido quase nada em casa’. Nikas consultou os pais de Pantelis, que disseram que não conseguem trabalho há meses. ‘Nem em meus sonhos mais loucos eu esperava ver a situação em que estamos. Hoje as famílias têm dificuldade não apenas para encontrar emprego, mas para sobreviver’, disse Nikas.”
A economia grega encolheu 20% nos últimos cinco anos. O índice de desemprego supera 27%, o mais alto da Europa, e seis em cada dez pessoas que buscam emprego dizem que não trabalham há mais de um ano. Essas estatísticas estão reformulando a vida das famílias gregas. As crianças chegam em número cada vez maior famintas, subalimentadas ou até desnutridas às escolas, segundo grupos privados e o governo.
Estima-se que 10% dos estudantes gregos da escola básica e média, no ano passado, tenham sofrido o que os profissionais de saúde pública chamam de ‘insegurança alimentar’. “Quando se trata de insegurança alimentar, a Grécia hoje caiu ao nível de alguns países africanos”, segundo Athena Linos, da Prolepsis, um grupo não governamental de saúde pública.
“Nossos sonhos foram esmagados”, diz Evangelia Karakaxa, 15, aluna do colégio número 9 em Acharnes. “Eles dizem que quando você se afoga, sua vida passa em um ‘flash’ diante de seus olhos. Minha sensação é de que na Grécia estamos nos afogando em terra seca.” Já Alexandra Perri, que trabalha na escola, disse que pelo menos 60 dos 280 alunos sofrem de desnutrição. “O que é assustador é a velocidade com que isso está acontecendo.”
“Ou optamos pelo rentismo ou pelo desenvolvimento produtivo”, afirmou Clemente Ganz Lucio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), na reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), que debateu, em 23 e 24 de abril, a alta dos preços dos alimentos e repercussões na soberania e segurança alimentar nutricional no Brasil.
A resposta de Clemente é clara: é preciso enfrentar o rentismo. No embate entre o aumento do preço do tomate - real, mas por razões sazonais e climáticas, com a consequente subida da inflação, e a suposta necessidade de aumento dos juros -, é preciso fazer uma escolha. Disse Clemente na reunião do Consea: “Ficou desconfortável para quem ganhava 8% em termos reais no jogo rentista da Bolsa de Valores e do mercado financeiro passar a ganhar apenas 2%, o que ainda é um percentual muito alto, se olharmos para o resto do mundo”.
Segundos os técnicos do Ministério da Fazenda presentes na reunião do Consea, o tomate serviu de isca e mote para dizer que a inflação estava fora de controle, o que, absolutamente, não está acontecendo. “Se retirarmos apenas três produtos (o tomate, os planos de saúde e o feijão) dos cálculos inflacionários de março, a inflação cai 40%”.
E não é só na Europa. Nos Estados Unidos, entre 2009 e 2011, o patrimônio líquido de 7% das famílias mais ricas cresceu 28%. O dos restantes 93% encolheu 4%. No meio da crise neoliberal, os 8 milhões de famílias mais ricas dos EUA viram sua riqueza média saltar de US$ 2,5 milhões para US$ 3,5 milhões. As restantes 111 milhões tiveram queda patrimônio: de US$ 140 mil para US$ 134 mil (Carta Maior, 2014: onde o bicho pega, 26.04.13).
No Brasil da última década, a renda dos 10% mais pobres cresceu 91%. A dos 10% mais ricos aumentou 16%. Foram gerados 19,3 milhões de empregos na última década. O aumento real de poder de compra do salário mínimo foi de 70%. Segundo o FMI, o Brasil foi o líder mundial na geração de empregos desde 2008, em pleno colapso da ordem neoliberal na Grécia e em quase toda Europa. Em 1995, com um salário mínimo comprava-se 1,02 cesta básica de alimentos. Em 2013, a relação cesta básica-salário mínimo é de 2,13. Ou seja mais que dobrou em 18 anos. Em 1995, precisava-se trabalhar 219 horas para adquirir a cesta básica. Em 2013, são necessárias 103 horas.
O tomate tornou-se o símbolo do rentismo, daqueles que vivem de rendas, sem produzir um prego, colher um pé de couve na horta ou uma espiga de milho na roça. Os que defenderam a distribuição de renda no 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras, não querem ver o Brasil tornar-se uma Grécia, onde as crianças chegam na escola com fome, ou voltar a viver no Brasil do desemprego dos anos noventa.
É preciso fazer escolhas. Como diz Leonidas Nikas, o diretor da escola grega: “A menos que a União Europeia aja como essa escola, onde as famílias ajudam outras famílias porque somos uma grande família, estaremos acabados”. E deixar de comprar o tomate por um tempo, até que ele, como já está acontecendo, superadas razões sazonais e condições climáticas, volte a preços normais.
Por fim, dizer como a presidenta Dilma Rousseff disse em seu pronunciamento de 1º de Maio: “Não abandonaremos jamais os pilares da nossa política econômica, que têm por base o crescimento sustentado e a estabilidade. E não abriremos mão jamais dos pilares fundamentais do nosso modelo: a distribuição de renda e a diminuição da desigualdade no Brasil”. Isto é, ou rentismo ou desenvolvimento produtivo.
Viva as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros!
*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.
Por Selvino Heck
“Crise faz com que crianças passem fome na Grécia”, é a manchete do New York Times (29.04.13). Diz a matéria do jornal: “Como diretor de uma escola primária, Leonidas Nikas está vendo o que ele pensava que fosse impossível acontecer na Grécia: crianças procurando comida nas latas de lixo, jovens necessitados pedindo sobras de comida aos colegas e um menino de 11 anos, Pantelis Petrakis, com o corpo crispado pela fome. ‘Ele não tinha comido quase nada em casa’. Nikas consultou os pais de Pantelis, que disseram que não conseguem trabalho há meses. ‘Nem em meus sonhos mais loucos eu esperava ver a situação em que estamos. Hoje as famílias têm dificuldade não apenas para encontrar emprego, mas para sobreviver’, disse Nikas.”
A economia grega encolheu 20% nos últimos cinco anos. O índice de desemprego supera 27%, o mais alto da Europa, e seis em cada dez pessoas que buscam emprego dizem que não trabalham há mais de um ano. Essas estatísticas estão reformulando a vida das famílias gregas. As crianças chegam em número cada vez maior famintas, subalimentadas ou até desnutridas às escolas, segundo grupos privados e o governo.
Estima-se que 10% dos estudantes gregos da escola básica e média, no ano passado, tenham sofrido o que os profissionais de saúde pública chamam de ‘insegurança alimentar’. “Quando se trata de insegurança alimentar, a Grécia hoje caiu ao nível de alguns países africanos”, segundo Athena Linos, da Prolepsis, um grupo não governamental de saúde pública.
“Nossos sonhos foram esmagados”, diz Evangelia Karakaxa, 15, aluna do colégio número 9 em Acharnes. “Eles dizem que quando você se afoga, sua vida passa em um ‘flash’ diante de seus olhos. Minha sensação é de que na Grécia estamos nos afogando em terra seca.” Já Alexandra Perri, que trabalha na escola, disse que pelo menos 60 dos 280 alunos sofrem de desnutrição. “O que é assustador é a velocidade com que isso está acontecendo.”
“Ou optamos pelo rentismo ou pelo desenvolvimento produtivo”, afirmou Clemente Ganz Lucio, diretor técnico do Departamento Intersindical de Estatística e Estudos Sócio-Econômicos (Dieese), na reunião do Conselho Nacional de Segurança Alimentar (Consea), que debateu, em 23 e 24 de abril, a alta dos preços dos alimentos e repercussões na soberania e segurança alimentar nutricional no Brasil.
A resposta de Clemente é clara: é preciso enfrentar o rentismo. No embate entre o aumento do preço do tomate - real, mas por razões sazonais e climáticas, com a consequente subida da inflação, e a suposta necessidade de aumento dos juros -, é preciso fazer uma escolha. Disse Clemente na reunião do Consea: “Ficou desconfortável para quem ganhava 8% em termos reais no jogo rentista da Bolsa de Valores e do mercado financeiro passar a ganhar apenas 2%, o que ainda é um percentual muito alto, se olharmos para o resto do mundo”.
Segundos os técnicos do Ministério da Fazenda presentes na reunião do Consea, o tomate serviu de isca e mote para dizer que a inflação estava fora de controle, o que, absolutamente, não está acontecendo. “Se retirarmos apenas três produtos (o tomate, os planos de saúde e o feijão) dos cálculos inflacionários de março, a inflação cai 40%”.
E não é só na Europa. Nos Estados Unidos, entre 2009 e 2011, o patrimônio líquido de 7% das famílias mais ricas cresceu 28%. O dos restantes 93% encolheu 4%. No meio da crise neoliberal, os 8 milhões de famílias mais ricas dos EUA viram sua riqueza média saltar de US$ 2,5 milhões para US$ 3,5 milhões. As restantes 111 milhões tiveram queda patrimônio: de US$ 140 mil para US$ 134 mil (Carta Maior, 2014: onde o bicho pega, 26.04.13).
No Brasil da última década, a renda dos 10% mais pobres cresceu 91%. A dos 10% mais ricos aumentou 16%. Foram gerados 19,3 milhões de empregos na última década. O aumento real de poder de compra do salário mínimo foi de 70%. Segundo o FMI, o Brasil foi o líder mundial na geração de empregos desde 2008, em pleno colapso da ordem neoliberal na Grécia e em quase toda Europa. Em 1995, com um salário mínimo comprava-se 1,02 cesta básica de alimentos. Em 2013, a relação cesta básica-salário mínimo é de 2,13. Ou seja mais que dobrou em 18 anos. Em 1995, precisava-se trabalhar 219 horas para adquirir a cesta básica. Em 2013, são necessárias 103 horas.
O tomate tornou-se o símbolo do rentismo, daqueles que vivem de rendas, sem produzir um prego, colher um pé de couve na horta ou uma espiga de milho na roça. Os que defenderam a distribuição de renda no 1º de Maio, Dia dos Trabalhadores e Trabalhadoras, não querem ver o Brasil tornar-se uma Grécia, onde as crianças chegam na escola com fome, ou voltar a viver no Brasil do desemprego dos anos noventa.
É preciso fazer escolhas. Como diz Leonidas Nikas, o diretor da escola grega: “A menos que a União Europeia aja como essa escola, onde as famílias ajudam outras famílias porque somos uma grande família, estaremos acabados”. E deixar de comprar o tomate por um tempo, até que ele, como já está acontecendo, superadas razões sazonais e condições climáticas, volte a preços normais.
Por fim, dizer como a presidenta Dilma Rousseff disse em seu pronunciamento de 1º de Maio: “Não abandonaremos jamais os pilares da nossa política econômica, que têm por base o crescimento sustentado e a estabilidade. E não abriremos mão jamais dos pilares fundamentais do nosso modelo: a distribuição de renda e a diminuição da desigualdade no Brasil”. Isto é, ou rentismo ou desenvolvimento produtivo.
Viva as trabalhadoras e os trabalhadores brasileiros!
*Selvino Heck é assessor especial da Secretaria Geral da Presidência da República.

INCERTEZAS

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Antonio Delfim Netto
Com a divulgação, semana que vem, da Ata da reunião do Comitê de Política Monetária do Banco Central na última quarta-feira, 18.04, certamente se terá a oportunidade de conhecer mais amplamente os motivos que levaram à decisão de elevar em 0,25% a taxa básica de juros – a SELIC – situando-a em 7,50% ao ano. A medida, apoiada nos votos de seis dos oito membros do COPOM, foi justificada no sucinto comunicado ao final da reunião no qual “o Comitê avalia que o nível elevado da inflação e a dispersão de aumentos de preços, entre outros fatores, contribuem para que a inflação mostre resistência e ensejam uma resposta da política monetária”. O comunicado pondera ainda que “incertezas internas e principalmente externas cercam o cenário prospectivo para a inflação e recomendam que a política monetária seja administrada com cautela.”
Não é segredo que se havia formado uma espécie de cabo de guerra entre o setor financeiro e o governo a respeito do momento em que se teria que mudar a política monetária para combater a expectativa de inflação que vinha crescendo ligeiramente. Enquanto a taxa de juros real era de 10%, as pessoas reclamavam pouco; ninguém do mercado financeiro reclamava. No momento, com a taxa de inflação apenas ligeiramente superior, mas com o juro real em 2%, as pessoas tendem a reclamar muito mais. É evidente que se criou uma expectativa de crescimento da inflação muito prejudicial e é algo empiricamente verificável que a inflação de 2013 depende da inflação de 2012 e é corrigida pelas expectativas de inflação do próprio ano. Se não se introduz algum mecanismo para reduzir esta expectativa, a inflação vai assumindo uma dinâmica própria, e muito inconveniente.
A inflação brasileira não é produto de um excesso de demanda, tanto que o PIB do Brasil está crescendo aí perto de uns 2%, claramente muito abaixo de sua capacidade. E a expansão das expectativas evidentemente não teve origem no problema de oferta que elevou o preço do tomate, embora convenientemente explorado na mídia.  A inflação é um aumento continuado de todos os preços. A que acontece no Brasil tem sido um aumento nesses últimos 15 anos de 5.8% ou 5.7%, até o ano passado. Agora, ela está “rodando” em 6.6% e é sim uma inflação que não se deve aceitar que permaneça nesse nível.
O fato é que desde o Plano Real não conseguimos entregar uma inflação de 2% ou 3%, que é uma inflação civilizada e nem voltar
a alcançar um crescimento econômico robusto, de pelo menos uns 5% ao ano. Porque, depois do sucesso inicial extraordinário de um programa realmente brilhante, os governos passaram a “surfar” a popularidade do Real e não fizeram o que devia ser feito: o ajuste fiscal.
As causas da inflação brasileira estão bem determinadas e não são simplesmente manipuláveis por alterações na SELIC. Seu controle depende de uma ação coordenada da política monetária e da política fiscal e de mudanças estruturais. Se estimularmos, como se estimulou, com formas inadequadas, aumentos salariais acima da produtividade, inevitavelmente se tem um processo inflacionário.
É preciso entender isso, acabar com as indexações, e realizar um corte nas despesas do governo, mas isso é muito mais difícil que mexer na taxa de juros.

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